Tenho consciência que durante esta minha existência, tenho magoado muitas almas e talvez tenha contribuído para a felicidade de um punhado delas, mas não tomo este último fato como um dado adquirido, muito menos como uma verdade irrefutável, não tenho descaramento para tanto.

Tento ajustar o meu perfil de carne e osso, ao paradigma de uma existência com algum sentido, não julguem que estou a fantasiar com um pseudo problema insignificante, estou sobretudo a tentar ser leal comigo próprio, para ser o mais claro e lúcido para com os outros, pois só o receio de não corresponder ao sonho de mim mesmo, já me deixa angustiado.

Bem sei que alguns esboçam sorrisos velhos, perante este meu palrar de cabeça vazia (ou não), quantas vezes me estendo na enxerga com os ossos doloridos mas ocos nunca, parvo às vezes, mas recorrendo ao lugar comum, inventado a preceito para justificar fraquezas humanas – ninguém é perfeito, quantas vezes vem mesmo a calhar, suscitando um despropositado clamor de aplausos comungado por todos (mesmo os que o negam) em histérica estupidez passiva e vulcânica, levada ao rubro pelos bichos pensantes.

Estranha forma de olhar, dirão, nem concordo nem discordo, seja lá como for, utilizar a inteligência que temos ao serviço dos instintos bem perceptíveis, conscientes que a vida é uma moeda com duas faces, de um lado a reflexão solitária e fria mas humana, do outro a tendência para teatralizar ou ainda fazer de conta, enfim, mas tudo misturado dá a história de uma existência, mais, ou menos, interessante, pelo menos é assim que eu vejo as coisas.

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Espelhos trincados com imagens desconexas. Sol da manhã opaco no limo da janela, escondendo os gatos que nela pairavam. Raios esquivos serpenteiam na mesa. Pratos sujos empoeirados. Sorrisos caídos ao chão.

Uma frase escrita com ferro na porta de entrada com os dizeres:  “If only I’d thought of the right words / I could have hold onto your heart”. Olhares samaritanos direcionados a ele. Sentado na batente da janela com seu copo vazio. Talvez esteja mesmo na cidade de plástico. “If I could be who you wanted.”

Uma ruína do que realmente sou. Ou ao menos do que era. E um profundo abismo entre a porta de saída.

pra quem via de fora eram  apenas dois velhos  amigos íntimos andando pelas ruas. sorrindo, cantando histórias e desestórias, contando poemas e declamando músicas. de mãos dadas, fazendo piadas dos outros, fazendo piada dos defeitos dele, dos trejeitos dela. dividndo angústias, misturando intimidades, ela andando com as pernas dele e ele gesticulando com as mãos dela. chamavam aquilo de amor. um amor diferente, deles, só deles. um amor sem um início própriamente dito e sem um fim estabelecido, tudo bem assim, sem pé e nem cabeça. apesar dessse amor, que era intenso, já previam o fim, mais do que óbvio e inevitável,  por isso não faziam promessas, não faziam planos. apenas caminhavam aproveitando as horas em que podiam estar juntos. bonitas horas, bonitas palavras, bonitas intenções, bonitas, lindas, mas que não iriam durar. e não duraram. cada um seguiu seu caminho, cada um por uma rua distinta, paralelas, sem nenhuma ligação. no início, logo após a separação sentiram uma certa dificuldade de se adaptarem com as própias pernas, de ouvirem as gírias que aprenderam juntos serem ditas individualmente, de não ter as mãos preenchidas pela outra mão. mas hoje, hoje são dois estranhos, não se reconheceriam se cruzassem pelas ruas e tudo bem. a vida continua. feliz ou infelizmente ela sempre continua.

de dk.

O domingo tem gosto de saudade. E é sempre uma saudade sem nome, onde a razão não alcança seu sentido. Não sabemos de quem nem de onde, apenas que a sentimos. É como estar à espera de alguém que se ausentou para um lugar remoto, à espera de um rosto familiar, de um olhar esquecido pela memória, mas que o coração guardou vestígios.

Através da janela, observo todos os movimentos que se desenrolarem lá fora. E tudo me parece… Tão vago… Tão distante… Tão mudo… Tão triste…Tão só. Uma análise fria e calculista de como me encontro na vida que levo.

A carência é vergonhosa, quase um atestado de incompetência nos dias de hoje, onde a oferta empata com a procura. Mas o brasileiro é um povo carente por natureza, do lazer à educação, da panela à saúde, do congresso ao tribunal. Me estranha não haver um samba ou pelo menos uma marchinha para fazer trenzinho em fevereiro. Há um texto da Clarice Lispector que caracteriza com maestria o estado emocional: “não tenhas medo da carência, ela é o nosso destino maior, somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente”.

Pronto, taí, gostei. Encontramos para ela uma função. A carência é o motor do recomeço, implica a saciar a falta que nos sobra, buscar um rosto limpo, um corpo novo, um beijo recente, um abraço inaugural.
Por mais que busque uma vida tranquila como era, sei que não a encontrarei. E o que sobra? A maldita carência.

Eu sei que tudo que eu queria escrever aqui, era “Mamãe, sinto-me tão órfão e solitário, um vazio me deixa triste e sem ação…” mas isso soaria mais como um grito desgrenhado ecoando no vazio das teclas. Não seria a verdade absoluta como ela deveria ser. Mas o que eu quero mesmo, é provar pra todo mundo, como ainda assim, existe sentimento na distância. Saudade não é o vazio de sentimento. Pelo contrário, é o acumulo dele, a ponto que o vaso cede e resolve mostrar na deformidade do preenchimento.

Saudades. Carência. Afeto. Seja lá como quiseres chamar, deixe-o longe de mim.

Viver em dor, o que ninguém entende. Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.

E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito, Clarisse sabe que a loucura está presente. E sente a essência estranha do que é a morte… Mas esse vazio ela já conhece muito bem.
De quando em quando é um novo tratamento, mas o mundo continua sempre o mesmo.
Clarisse está trancada no seu quarto com seus discos e seus livros, seu cansaço.

Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola e esperam que eu cante como antes.

A garota que sempre me faz rir…

As vezes me pergunto se ela realmente me vê, ou se enxerga somente a minha máscara.

Invisibilidade.

Céu escuro, nuvens pesadas. Mas eu gosto assim, aprecio levantar-me antes do . Espreguiço-me lentamente antes de me levantar. Só então caminho para o banheiro, onde faço minha higiene pessoal. Voltando ao quarto, sento-me em minha penteadeira de mogno antiga, a única herança que me resta de um tempo sem ilusões.

-Hoje será um dia difícil. – Disse ao meu reflexo enquanto repassava mentalmente os compromissos do dia.

Lentamente abro a gaveta da penteadeira e, com um brilho de tristeza nos olhos, admiro minha coleção de máscaras. Todas impecáveis em suas personalidades imutáveis. Selecionei três dentre as várias que possuo. Agora, sobre a penteadeira, fitava-as indeciso. A máscara do sarcasmo retribuía-me o olhar, firme em sua decisão; a ironia disfarçava uma piedade que não lhe cabia e a indiferença mal se dirigia a mim.

Mas era outra máscara que sempre me prendia a atenção. A máscara que eu mais gostava escondia-se no fundo da mesma gaveta. Ao seu lado: um maço de cigarros e um frasco de perfume. Com a ajuda do espelho, coloquei-a sobre meu rosto limpo, e instantes depois, um belo sorriso o iluminava, falso, mas perfeito em seu propósito.

Eu realmente a adorava, afinal o quê melhor do que o sorriso encantador de uma bela garota para atingir seus propósitos. O sorriso que pairava deslumbrante em meu rosto era o responsável pela estabilidade que eu conseguira.

A máscara do sorriso, em particular, servia com exímia precisão ao meu propósito: proteger-me. Uso-as há tanto tempo que nunca, nunca saio de casa sem uma dessa. Já com as portas de meu guarda-roupa abertas, escolhi uma camiseta branca. Combinaria com minha máscara angelical do dia.

E certamente, minha personalização estava completa. Nunca me engano quando escolho a máscara certa. Retornei pro espelho e vi um menino inocente, angelical com um estonteante sorriso em meus lábios frios.

Eu me admiro e me odeio por isso. Admiro, pois dentre todas as pessoas que conheço, eu sou o único capaz de me desarmar. Odeio, pois sem a reconfortante proteção de minhas máscaras, sou obrigado a ser quem eu sou, dizer a verdade e, claro, perder o chão.

Afinal, o que ganho com isso? Gosto de me sentir seguro e recluso em minha essência. É assim que encaro a dolorosa realidade da vida: escondendo-me.

Não por medo, que isso fique claro, mas por precaução. O preço de se abrir com uma pessoa, de dizer o que realmente pensa é tão elevado que chega a não valer à pena. Pelo menos para mim. Também não pensem que nunca desfrutei de tal experiência. Em ambas às vezes em que tentei, fui violentamente dilacerado, o que me fez, claro, retroceder.

Minhas máscaras não me impedem de ver a realidade ou interagir com ela. Apenas me protegem da dor que a cerca.

Olho-me no espelho uma última vez antes de colocar minha mochila nas costas e sair de casa. O mundo espera ansioso pelo belo sorriso de minha máscara.

Dançar de forma bizarra durante a noite inteira nos caixas eletrônicos dos bancos.

Apresentaçõoes pirotécnicas não autorizadas. Land-art, peças de argila que sugerem estranhos artefatos alienígenas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez de roubar, deixe objetos Poético-Terroristas. Sequestre alguém e o faça feliz.

Escolha alguém ao acaso e o convença de que é herdeiro de uma enorme, inútil e impressionante fortuna – digamos, 5 mil quilômetros quadrados na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim ou uma coleção de manuscritos de alquimia. Mais tarde, essa pessoa perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraor- dinário e talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de existência.

Coloque placas de bronze comemorativas nos lugares (públicos ou privados) onde você teve uma revelação  ou viveu uma experiência sexual particularmente inesquecível etc.

Fique nu para simbolizar algo.

Organize uma greve em sua escola ou trabalho em protesto por eles não satisfazerem a sua necessidade de indolência e beleza espiritual.

A arte do grafite emprestou alguma graça aos horríveis vagões do metrô e sóbrios monumentos públicos – a arte-TP também pode ser criada para lugares públicos: poemas rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob o limpador de pára-brisas de carros estacionados, slogans escritos com letras gigantes nas paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários previamente eleitos ou escolhidos ao acaso (fraude postal), transmissões de rádio piratas.

Cimento fresco…

A reação  do público ou choque-estético produzido pelo TP tem de ser uma emoção  menos tão forte quanto o terror – profunda repugnância, tesão sexual, temor supersticioso, súbitas revelações intuitivas, angústia dadaísta – não importa se o TP é dirigido a apenas uma ou várias pessoas, se é “assinado” ou anônimo: se não mudar a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.

TP é um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras de poltronas, sem ingressos ou paredes. Pare que funcione, o TP deve afastar-se de forma categórica de todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publicações, mídia).

Mesmo as táticas da guerrilha Situacionista do teatro de rua talvez já tenham se tornado conhecidas e previsíveis demais.

Uma primorosa sedução  praticada não apenas em busca da satisfação  mútua, mas também como um ato consciente de uma vida deliberadamente bela – talvez isso seja o TP em seu alto grau. Os Terroristas-Poéticos comportam-se como um trapaceiro totalmente confiante cujo objetivo não é dinheiro, mas transformação .

Não faça TP Para outros artistas, faça-o para aquelas pessoas que não perceberão (pelo menos não imediatamente) que aquilo que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite politicagem, não argumente, não seja sentimental. Seja brutal, assuma riscos, vandalize apenas o que deve ser destruído, faça algo de que as crianças se lembrarão por toda a vida – mas não seja espontâneo a menos que a musa do TP tenha se apossado de você.

Vista-se de forma intencional. Deixe um nome falso. Torne-se uma lenda. O melhor TP é contra a lei, mas não seja pego. Arte como crime; crime como arte.

de Hakin Bey

Curiosamente, tenho a mania de confundir insônia com a vontade arrebatadora de acender um cigarro.

Tudo começa de mansinho, apago o cigarro, deito e me aconchego ao calor dos cobertores e nestas noites que fazem frio, e nestas noites, o que mais me impressiona é a minha capacidade em mostrar imagens a cegos, a falar pausadamente com surdos e pedir respostas polissilábicas de mudos, e mesmo que depois de amputada a minha mão direita ainda se levanta para acenar o “tchau” passageiro e o pensamento corre longe, acendo outro cigarro.

Depois desta dose alucinógena de pensamentos frívolos surtidos na cabeça de um ser que ainda houve os badalos dos sinos, o barulho do motor das motos e que ainda gosta de apreciar o barulho da chuva em certas noites, decido então levantar cuidadosamente, me dirijo até a cozinha e num breve sussurrar de passos lentos chego ate ao altar de toda insônia: o monumento branco que guarda dentro de si a luz e a água gelada, as vezes como todos os homens que conheço me esqueço dos modos e tomo direto da garrafa aquele líquido gélido que bate no estômago primeiro como uma faca, mas logo se torna o mais denso calmante e novamente, acendo outro cigarro.

Em mais uma noite os pensamentos me tomaram a mente vi o quão burro posso ser ao pensar e tanto pensar e deixar de dormir, seria isso uma característica de genialidade? Não! Não seria! Os gênios aproveitam as horas de sono para recarregarem seus pensamentos, então seria uma sobrecarga de pensamentos? Bom poderia ser,  se eu encontra-se uma maneira de descarregá-las. Talvez por isso que escreva e não seria isso que motivará a invenção da escrita, ou ao menos aos cigarros? Seria este o motivo pelo desespero dos senadores pela proibição do cigarro, ou então de toda a corja que assombra os fumantes nas ruas.

Assim como muitos, quando comecei a fumar, o cigarro era moda e símbolo de rebeldia (pelo menos pra mim). Ía de encontro a tudo que me havia sido ensinado. Os meus pais odiavam cigarro e, para mostrar que eu era dono do meu próprio nariz, resolvi que começaria a fumar. E novamente, as cinzas do cigarro cairam numa dança destrutiva rumo ao chão.

Talvez, o melhor seria aceitarmos que todo paraíso precisa um pouco de inferno. Agir direito é uma coisa, mas temos que ficar de olho nos que tentam “redesenhar” o mundo, apagando cigarros ou qualquer vestígio da nossa desajeitada humanidade. Se ficarmos muito bonzinhos, muito certinhos, muito perfeitinhos, acabaremos perdendo o que nos resta da felicidade.

Orquídeas. O que é maravilhoso é que essas flores têm uma relação especial com o inseto que as poliniza. Cada orquídea se parece com um tipo de inseto que é atraído por ela. Seu duplo, sua alma gêmea. Tudo que ele quer é fazer amor com ela. Daí ele voa, avista e faz amor com sua alma gêmea, polinizando-a. Nem a flor nem o inseto jamais percebem a importância do seu ato sexual. Como saberiam que sua dança dá vida ao mundo? E dá. Fazendo o que foram programados para fazer, algo magnífico acontece. Eles nos ensinam a viver. Que nosso único barômetro é o coração. Quando vir sua flor não deixe que nada se interponha em seu caminho.

Sabe por que gosto de plantas? Por serem tão mutáveis. A adaptação é um processo profundo. Temos de descobrir como sobreviver no mundo. Mas é mais fácil para as plantas. Elas não têm memória. Apenas passam à fase seguinte. Mas para as pessoas adaptar-se é quase vergonhoso. É como fugir.

Pensador…


os dois lados da moeda brilhante e totalmente atrativa.

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  • 140 caracteres, e sem idéias do que escrever neles. Imagina se fossem 140,000. 7 years ago
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