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Curiosamente, tenho a mania de confundir insônia com a vontade arrebatadora de acender um cigarro.

Tudo começa de mansinho, apago o cigarro, deito e me aconchego ao calor dos cobertores e nestas noites que fazem frio, e nestas noites, o que mais me impressiona é a minha capacidade em mostrar imagens a cegos, a falar pausadamente com surdos e pedir respostas polissilábicas de mudos, e mesmo que depois de amputada a minha mão direita ainda se levanta para acenar o “tchau” passageiro e o pensamento corre longe, acendo outro cigarro.

Depois desta dose alucinógena de pensamentos frívolos surtidos na cabeça de um ser que ainda houve os badalos dos sinos, o barulho do motor das motos e que ainda gosta de apreciar o barulho da chuva em certas noites, decido então levantar cuidadosamente, me dirijo até a cozinha e num breve sussurrar de passos lentos chego ate ao altar de toda insônia: o monumento branco que guarda dentro de si a luz e a água gelada, as vezes como todos os homens que conheço me esqueço dos modos e tomo direto da garrafa aquele líquido gélido que bate no estômago primeiro como uma faca, mas logo se torna o mais denso calmante e novamente, acendo outro cigarro.

Em mais uma noite os pensamentos me tomaram a mente vi o quão burro posso ser ao pensar e tanto pensar e deixar de dormir, seria isso uma característica de genialidade? Não! Não seria! Os gênios aproveitam as horas de sono para recarregarem seus pensamentos, então seria uma sobrecarga de pensamentos? Bom poderia ser,  se eu encontra-se uma maneira de descarregá-las. Talvez por isso que escreva e não seria isso que motivará a invenção da escrita, ou ao menos aos cigarros? Seria este o motivo pelo desespero dos senadores pela proibição do cigarro, ou então de toda a corja que assombra os fumantes nas ruas.

Assim como muitos, quando comecei a fumar, o cigarro era moda e símbolo de rebeldia (pelo menos pra mim). Ía de encontro a tudo que me havia sido ensinado. Os meus pais odiavam cigarro e, para mostrar que eu era dono do meu próprio nariz, resolvi que começaria a fumar. E novamente, as cinzas do cigarro cairam numa dança destrutiva rumo ao chão.

Talvez, o melhor seria aceitarmos que todo paraíso precisa um pouco de inferno. Agir direito é uma coisa, mas temos que ficar de olho nos que tentam “redesenhar” o mundo, apagando cigarros ou qualquer vestígio da nossa desajeitada humanidade. Se ficarmos muito bonzinhos, muito certinhos, muito perfeitinhos, acabaremos perdendo o que nos resta da felicidade.

Orquídeas. O que é maravilhoso é que essas flores têm uma relação especial com o inseto que as poliniza. Cada orquídea se parece com um tipo de inseto que é atraído por ela. Seu duplo, sua alma gêmea. Tudo que ele quer é fazer amor com ela. Daí ele voa, avista e faz amor com sua alma gêmea, polinizando-a. Nem a flor nem o inseto jamais percebem a importância do seu ato sexual. Como saberiam que sua dança dá vida ao mundo? E dá. Fazendo o que foram programados para fazer, algo magnífico acontece. Eles nos ensinam a viver. Que nosso único barômetro é o coração. Quando vir sua flor não deixe que nada se interponha em seu caminho.

Sabe por que gosto de plantas? Por serem tão mutáveis. A adaptação é um processo profundo. Temos de descobrir como sobreviver no mundo. Mas é mais fácil para as plantas. Elas não têm memória. Apenas passam à fase seguinte. Mas para as pessoas adaptar-se é quase vergonhoso. É como fugir.

Alguns meses invernais, escuros, sem gosto nem jeito, tinham-me lentamente retirado a vontade de praticar esta atividade. Ela estava esquecida, arrumada lá muito no fundo do meu espírito, coberta e imobilizada por pesadas camadas de outros assuntos por resolver. Eu ali, parado, pequeno e seco, irradiva a paz, sagacidade e discrição tranquilizadora de um monge budista. Mas ainda assim, não me sentia completo.

Um perfume, uma cor, sabores enfim, nossos órgãos sensoriais nos remetem ao nosso passado, trazendo de volta momentos felizes e outros nem tanto. Mas ainda assim, os distúrbios distímicos são muito frequentes e que o senso comum é de rotular alguém como sendo assim assado e não de o de interpelar, acolher, encorajar a procurar ajuda.

Onde vamos parar? Como será a geração futura? Não sei… Aliás até sei…Mas, por razões obvias não carece levantar este assunto. O que me intriga é que com toda evolução tecnológica, como conseguimos regredir tanto como seres humanos?  Somos tão inteligentes em evoluir tecnologicamente e “burros” para desaprender o básico que move uma sociedade, como por exemplo, valores morais como a honestidade. A esperança que tenho, mesmo que minoria tem gente que vai morrer honesto, entre elas incluo-me.

“Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre, mas o meu sorriso é por consolação”

A depressão pode ser até fonte inspiradora de pintores, poetas, compositores, artistas de modo geral, mas, se não for cuidada pode também destruir (ou levar à auto-destruição) uma pessoa e seus sonhos.

Pensador…


os dois lados da moeda brilhante e totalmente atrativa.

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